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O Queen
é, sem dúvida, um fenômeno do rock. Não só
do rock, como de toda a história da música. Mesmo antes da
trágica morte do líder vocalista Freddie Mercury, em novembro
de 1991, o grupo já era reconhecido como um dos maiores de todos
os tempos. Através da mistura de elementos do pop, rock, glam, electro,
funk, ópera, e até memso rockabilly, eles quebraram todas
as barreiras estilísticas da música, mantendo-se a frente
das tendências de momento, sem tornar-se vítima da moda e
mesmo com a quase total falta de cobertura da imprensa musical, seus lançamentos
venderam em número cada vez maior.
A
história do Queen começa com Smile, uma banda de rock desconhecida
do início dos anos setenta, formada por dois estudantes de ciência,
Brian May e Roger Taylor. "Coloquei um anúncio no painel da faculdade
procurando um baterista que pudesse fazer o tipo de coisa que Hendrix e
o Cream faziam, e o Roger era perfeito", Brian nos conta. Brian começou
com a guitarra que toca até hoje. O som diferenciado é devido
à sua guitarra inusitada, ser construída de madeira do século
19, com ajuda de seu pai. Esta reciclagem surpreendente permitiu a criação
de uma infinidade de tons, e Brian inovou ainda mais pelo uso de uma moeda
antiga de prata em lugar da palheta de plástico comumente usada
pelos outros guitarristas.
Houve
alguns grupos anteriores ao Srnile, mas como Brian disse, "Nenhum desses
grupos chegaram em algum lugar porque nós nunca tocamos para valer".
O encontro com Roger fez tudo mudar. "Ele era o melhor baterista que eu
já
tinha visto", Brian admitiu. Roger Taylor cresceu
em Truro, Cornwall, e descobriu suas ambições musicais na
juventude, primeiro como guitarrista, e mais tarde como baterista, apesar
da desaprovação dos pais. Mas o estrelato exigiria sacrifícios.
No verão de 1969, Brian trabalhava como professor de matemática,
enquanto Roger vendia roupas de segunda-mão. Segundo Brian, eles
sabiam que o Smile não chegaria a lugar nenhum, pois sem um disco
próprio, acabavam caindo no esquecimento, mesmo entre as pessoas
que apreciavam as apresentações. Ainda assim, Brian acredita
que o grupo estava
além de seu tempo. "Existem fitas do Smile
que possuem as mesmas estruturas gerais do nosso trabalho atual".
Já a entrada de Tim Staffel no grupo foi
curiosa. Ele veio para substituir o vocalista, e também para ser
o baixista, embora o instrumento de sua preferência fosse o piano.
Morava a poucos metros de distância de Brian May, desde que se
mudara para a Inglaterra em 1959, mas só
foram se conhecer quase dez anos depois.
A cena se abre então para Frederick Bulsara, nascido em Zanzibar
(parte atual da Tanzânia). Diplomado em arte e design pela
mesma escola onde passaram Ron Wood (Rolling Stones) e Pete Townshend (The
Who), ele já havia
participado de grupos com nomes extravagantes
que não deram em nada, mas que aumentaram seu apetite pelo mundo
do rock, a ponto de mudar seu nome para Freddie Mercurv. Na época
em que se envolveu com o Smile, ele estava
trabalhando com Roger num stand de roupas usadas
no Kensington Market em Londres. "Freddie sempre pareceu um astro e agia
como um, mesmo quando não tinha um tostão sequer", lembra-se
Brian. "Com aquele stand, ele se tornou um dos
precursores do glam rock. Quando fomos todos
morar juntos, Freddie trazia grandes malas e ia tirando delas algumas peças
horríveis de roupas e dizendo: "Olha que roupa linda! Isso
vai valer uma fortuna!""
Ainda
no Kensington Market, Freddie conheceu Mary Austin, que administrava uma
butique lá perto, e os dois viveram juntos por muitos anos. Mesmo
quando seu lado gay aflorou, ela continuou sendo sua melhor amiga. "Freddie
era amigo de Tim que compareceu a muitas de nossas apresentações,
e fez sugestões irrecusáveis. Naquele tempo, ele ainda não
havia tentando ser cantor, e nós não sabíamos que
ele podia ser. Nós pensávamos que ele fosse só um
músico teatral".
Freddie acabou sendo muito mais do que isso.
"Quando acabamos com o Smile, foi ele que nos fez voltar, disse que éramos
capazes, e que teríamos apenas que ensaiar e nos apresentar melhor
no palco. E nós voltamos, reciclando algumas músicas do Smile
e de um grupo anterior do Freddie".
Portanto,
três peças do quebra-cabeça já haviam se juntado,
mas o quadro ainda estava incompleto. Faltava John Deacon, o sétimo
baixista a ser testado pelo grupo. Outro estudante de peso, que havia se
graduado com nota máxima em eletrônica, seis meses antes de
se juntar ao Queen. "Nós sabíamos que ele era o cara certo",
disse Brian mais tarde, "mesmo sendo tão quieto, dificilmente falava
com a gente..."
O
nome Queen foi concebido por Freddie, que o considerava "forte, universal
e imediato". E seus talentos artísticos foram logo solicitados para
a criação do logotipo do "Q coroado" que apareceria nos discos
da banda e se tomaria parte integrante da imagem do grupo. Os signos astrológicos
de cada membro foram também incorporados.
A
ambição corria solta, mas, a curto prazo pelo menos, cobrou
seu preço. "Se íamos abandonar nossas carreiras após
tanto esforço", dizia Brian, "queríamos conseguir o melhor
no campo da música. E nada veio fácil. Para ser sincero,
acho que nenhum de nós fazia a menor idéia de que levaríamos
três anos para conseguir algum resultado. Não foi nenhum conto
de fadas". No ano seguinte, o grupo já tinha material suficiente
para gravar nos estúdios De Lane Lea. Foi um acordo inusitado, já
que foram como convidados para testar o novo equipamento de gravação
a ser usado por clientes em potencial, e portanto não foram cobrados.
Os engenheiros de som com quem trabalharam sugeriram a produtora Trident
que contratasse o Queen. E deste modo, o álbum foi gravado nos momentos
em que o estúdio não estava sendo ocupado por clientes pagantes.
E a EMI Records foi encarregada de lançar os discos no mercado.
A
banda e o produtor passaram os primeiros meses de 1973 gravando este disco
que foi entitulado simplesmente "Queen", mas o desapontamento veio logo
em seguida, quando o primeiro hit do álbum foi rejeitado cinco vezes
pelas
rádios. Audaciosamente, a banda voltou
aos estúdios para gravar "Queen II" em agosto daquele mesmo ano.
"Desta vez tentamos ultrapassar os limites técnicos do estúdio",
explicou Brian. "Era um sonho para nós, porque não
tivemos esta oportunidade no primeiro disco".
Três meses depois, o Queen fez suas primeiras aparições
ao vivo em vários
lugares da Inglaterra, abrindo os shows do grupo
Mott the Hoople.Em março de 1974, o Queen iniciou a sua própria
turnê pela Inglaterra. E Freddie já monopolizava as atenções,
devido a sua maneira excêntrica de se vestir. Em abril daquele ano,
o Queen apareceu pela primeira vez na televisão e causou impacto
imediato, levando a música Seven Seas Of Rhye às
paradas. O lançamento de Killer Queen
em outubro/74 foi um grande marco para a banda. Freddie chegou a ser premiado
pela música, que segundo Brian, é a que melhor sintetiza
o estilo do grupo, e felizmente apareceu no momento certo". Ela
alcançou o segundo posto nas paradas,
e confirmou a presença de Queen no cenário musical. "Muita
gente pensava que nós éramos uma banda de heavy metal", disse
John, "mas Killer Queen mostrou um lado completamente novo do grupo, e
nos abriu um maior espaço, que certamente atingiu a um maior número
de pessoas". O disco se chamava Sheer Heart Attack, trazia na capa a banda
toda coberta com vaselina e molhada por uma mangueira! "O resultado final,"
admitiu Freddie, "é uma banda com quatro elementos decididamente
bronzeados e esbeltos, e tão ensopados como se tivessem suado a
semana inteira!" Logo, porém, eles estariam suando de verdade, excursionando
pela Inglaterra pela terceira vez no ano para consolidar seu sucesso natal.
A turnê
de 1974 provocou um frenesi sem igual dos fãs. Em algumas noites,
a banda mal podia deixar o palco. Na Escócia, houve até brigas
e feridos na platéia. E nos Estados Unidos foram agendados cinco
shows em Nova Iorque.
Nesta época, a guitarra sinfônica
de Brian e o toque diferente do piano de Freddie já eram marcas
registradas da banda. Muitas pessoas acreditavam que eles faziam uso de
sintetizadores, mas nos primeiros nove discos nunca houve nem sintetizador
nem orquestra, e nem mesmo qualquer outro músico além deles
apenas. "Bohemian Rhapsody" colocou-os de vez entre os monstros do rock.
Ela levou cerca de três semanas para ser gravada, pois se tratava
de três músicas condensadas em uma. Muita gente do showbis
duvidava que uma música com sete minutos pudesse chegar às
paradas, mas ela emplacou por 17 semanas, no mínimo. Ainda assim,
o sucesso nos Estados Unidos demorava para se confirmar, e para piorar,
Freddie perdeu a voz no meio da turnê americana. Felizmente, no Japão,
as coisas foram diferentes. Cerca de 3000 garotas esperavam por eles aos
berros no aeroporto de Tóquio. O quinto álbum, "A Day at
the Races" (1975), foi marcado por uma festa
memorável num hipódromo, no sul
de Londres. Era a primeira vez que o Queen produzia seu próprio
disco, e o sucesso de "We Are the Champions" conquistou finalmente os Estados
Unidos. O sucesso do disco foi comemorado num concerto
para 150.000 fãs, no Hyde Park, em Londres,
com entrada franca. Iniciaram assim, uma tradição que foi
perpetuada por astros de peso de Pink Floyd a Pavaroti!
A imprensa
deste período, que se voltava para o punk rock, tentava destronar
o Queen de várias formas, mas a resposta do público ainda
era impressionante. No palco, as calças de couro de Freddie levantavam
insultos da crítica, e ele respondia profeticamente, "Estamos usando
apenas nossas próprias armas, e se elas valerem alguma coisa, sobreviveremos".
Na turnê de 1978, Freddie aparecia carregado por dois fortões
vestidos de Supermen, como numa provocação. Ao final dos
anos setenta, o Queen procurava uma nova fórmula de sucesso para
o rock, e ela finalmente veio com "Crazy Little Thing Called Love",
música feita no estilo de Elvis Presley,
e a primeira a alcançar o primeiro lugar nos Estados Unidos. "Não
medimos nossa reputação pelas paradas de sucesso", disse
Brian, "mas cada hit que você faz, acaba atraindo um novo tipo de
público". No palco, "Crazy" fazia Freddie trocar seu famoso microfone
por uma guitarra acústica de 12 cordas, além de trazê-lo
com seu
novo visual de cabelos curtos E de repente, a
crítica voltou a fazer as pazes com o grupo, impressionada ainda
mais pela participação da banda num concerto beneficente,
em dezembro de 1979, pelo povo de Kampuchea. O disco "The Game" trouxe
o sucesso de John Deacon, "Another One Bites the Dust", que abriu um novo
mercado para o Queen: as rádios de música negra.
O
próximo passo foi a trilha sonora de Flash Gordon. Em fevereiro
de 1981 foi a vez de uma grande turnê pela América Latina.
"Nós estávamos muito nervosos", admitiu Freddie. "Não
tínhamos o direito de criar expectativas num lugar totalmente estranho.
E acho que eles nunca tinham visto um show tão ambicioso antes".
É claro que o sucesso foi estrondoso. E algum tempo depois, nem
mesmo a Guerra das Malvinas impedia que o grupo dominasse as paradas argentinas.
O concerto deles em São Paulo reuniu o número inacreditável
de 251.000 pessoas, imortalizando o grupo nas páginas do Guinness
Book.
A primeira coletânea de sucessos da banda
ficou mais de três anos nas paradas britânicas! Mas o próximo
álbum "Hot Space" não atingiu o sucesso esperado e marcou
uma pausa na carreira do Queen - a primeira em doze anos de união.
Entretanto, Freddie não admitia que se falasse em separação.
"Eu achava que ficaríamos uns cinco anos juntos, mas agora estamos
muito velhos para desistir". Realmente, a pausa aumentou o apetite por
novas músicas. E o trabalho lançado em 1984, "The Works",
trazia pérolas como Radio Ga Ga, de autoria de Roger, e que fez
a banda alcançar um feito inédito todos os quatro elementos
do grupo tiveram suas próprias composições no hit
parade. Outra música, "I Want to Break Free", trouxe um vídeo
audacioso, com toda banda travestida de mulher, e arrancou risadas até
de seus fiéis seguidores. Mas nos Estados Unidos, teve o efeito
inverso. Enquanto o resto do mundo ria, os americanos se ofendiam.
Em outubro de 1984, outra controvérsia surgiu: o grupo tocou oito
dias na capital da Africa do Sul, e certamente foi acusado de racismo,
devido ao apartheid.
Já
1985 iniciou brilhantemente, com dois shows no Rock in Rio, em janeiro,
aqui no Brasil. "Primeiramente, fomos à América do Sul como
convidados. Mas agora, eu quero comprar o continente inteiro e me tomar
presidente", comentou
Freddie. Oprimeiro disco solo de Freddie Mercury
chamava-se "Mr. Bad Guy", e era bem diferente do trabalho do Queen. No
entanto, não era a música de Freddie que importava para a
mídia, e sim sua vida amorosa. Ele já havia admitido publicamente,
a exemplo de Elton John, que se sentia atraído por ambos os sexos.
Seu relacionamento com Mary Austin, havia se transformado numa forte amizade.
E ele admitia que era muito difícil encontrar a companhia ideal.
Mas queria continuar tentando. Com relação ao Queen, a participação
no concerto "Live Aid" foi motivo de orgulho para a banda. "Foi um daqueles
dias em que nos alegramos por fazer parte do showbis. O show aumentou a
nossa moral, e nos mostrou a força que tínhamos na Inglaterra".
O próprio Bob Geldo, idealizador do concerto, elegeu-os como a melhor
banda de todas.
A
turnê Magic Tour teve que adicionar mais datas para apresentações
em Wembley, na Inglaterra, pois os oitenta mil ingressos disponíveis
foram vendidos imediatamente, apenas por via postal. Mais tarde veio o
sucesso da trilha sonora de Highlander. Além disto, o maior solo
de Freddie, "The Great Pretender", atingia as paradas, seguido por "Barcelona"
com a cantora de ópera Montserrat Caballé.Em maio de 1989
apareceu o primeiro disco do Queen após 3 anos, "The Miracle",
mas Freddie não se dispôs a enfrentar
uma turnê. Roger rapidamente reagiu aos comentários
sobre o estado de saúde de Freddie. "Que nada! Freddie está
mais saudável do que nunca". Entretanto, Freddie quase não
saía mais de sua
mansão em Londres. Em fevereiro de 1990,
a indústria fonográfica britânica os premiou pela sua
importante contribuição para o mundo musical, mas os jornalistas
só se preocupavam com a aparência pálida de Freddie.
Brian o defendeu: "Ele está
bem e não tem AIDS, mas eu acho que o
estilo pesado do rock o derrubou. Ele precisa apenas descansar.
Em
1991, surge o álbum "lnnuendo", alcançando o primeiro lugar
nas paradas, mas os rumores sobre a saúde de Freddie eram maiores
do que nunca. Finalmente, em 23 de novembro de 91, uma curta declaração
confirmou o pior.
"Seguindo as enormes conjecturas da imprensa,
quero confirmar que sou soro positivo e portanto tenho AIDS. Achei correto
manter esta informação oculta para proteger a privacidade
dos que me rodeiam. Entretanto, chegou a hora dos meus amigos e fãs
ao redor do mundo saberem a verdade, e eu espero que todos, juntamente
com meus médicos, lutem contra esta terrível doença.
Minha privacidade sempre foi muito importante para mim, e eu sou famoso
por não dar entrevistas. Por favor, entendam que esta política
continuará". No dia seguinte, Freddie morreu.
A
banda logo fez questão de anunciar que sem Freddie Mercury o Queen
não poderia sobreviver. "Não há sentido em continuar.
E impossível substituir Freddie. Estamos terrivelmente abalados
com sua ida, mas muito orgulhosos do modo corajoso com que ele viveu e
morreu. Foi um privilégio dividir com ele momentos tão mágicos".
Em
abril de 1992, um concerto em homenagem ao mestre dos palcos de todos o
tempos foi realizado em Londres, no Wembley Stadium. Vários astros
compareceram. De Elton John a Guns N' Roses, Def Leppard a Liza Minelli,
todos vieram se despedir de Freddie. De todas as homenagens do dia, a de
Axl Rose foi a mais tocante. "Se eu não tivesse conhecido as letras
de Freddie Mercury quando era garoto, não sei onde eu estaria hoje.
Foi ele quem me ensinou sobre todas as formas de música, e
abriu a minha mente. Nunca houve um maior professor em minha vida".
Os
75 mil ingressos para o show venderam em seis horas. "Para muitos fãs",
disse Roger Taylor, "este show substituiu o tradicional velório.
Foi o modo de todos dizerem adeus". O relançamento de Bohemian Rhapsody
não foi o último modo de comemorar a vida de Freddie. Brian
May também deixou de lado sua guitarra e sentou-se ao piano para
tocar uma nova música chamada "Too Much Love Will Kill You". E um
álbum duplo da última turnê da banda em 1986 foi lançado,
lembrando o que o mundo havia perdido.
Mas
é claro que enquanto a voz de Freddie continuar ecoando nas músicas
do Queen, ele e também nós seremos sempre campeões,
como ele já previa em We Are the Champions.