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Entrevista com Brian May na sua casa em 1998

Brian May: o lendário astro do rock em sua casa em Surrey
Por Martin Towsend - 19 de junho de 1998


QueenA casa de Brian May é um testamento a uma vida de entusiasmo infantil.Um ávido colecionador de tudo,desde estereógrafos vitorianos de T. R. Williams (sobre quem ele planeja escrever) até brinquedos de lata e coisas relacionadas a Guerra nas Estrelas, sua imponente mansão em Surrey revela tesouros improváveis a cada olhar. Na mesa de café em sua sala de estar repousa o braço da guitarra que ele construiu com seu pai, já falecido. Ela está sendo renovada cuidadosamente por um especialista australiano que tem uma oficina na casa. "Eu vivo no meio de um monte de coisas do tipo realização de sonhos" diz Brian, 50, que mora aqui e em Londres com a atriz Anita Dobson, "e eu tenho muita sorte por poder viver assim". Sua vida emocional, no entanto, parece menos realizada. Ao lançar seu novo disco solo chamado Another World, Brian reflete sobre sucesso, casamento e paternidade – e a trágica morte do baterista Cozy Powell, cujo último trabalho pode ser ouvido no novo disco.
 

QueenComo você soube que Cozy tinha morrido?
QueenEu estava na África com meus filhos porque os havia levado num safári. Julie (assistente pessoal de Brian) telefonou e disse ‘Tenho más notícias’ – e você sabe como dá aquele peso no estômago? Ela disse ‘Cozi morreu num acidente de carro’. Eu realmente não conseguia entender aquilo. Parecia muito irreal. Mas toda manhã depois daquela, eu acordava e isso me vinha à cabeça. Sou um tipo de pessoa muito instável. Só consigo trabalhar em certos períodos. Fico muito deprimido com bastante frequência, e Cozy sempre conseguia tirar você disso. Ele sempre fazia você sentir que as coisas valiam a pena. Ele tinha um grande orgulho de seu trabalho como baterista e realmente há muito, muito poucos como ele. John Bonham era um. Um baterista pesado, massivo, e um dos criadores do estilo – e Cozy era outro.
 

QueenA morte lançou uma grande sombra sobre a última década. Isso mudou a sua perspectiva?
QueenVocê cresce, não é?Quando você é jovem e cheio de entusiasmo e energia e ambição e coisas assim, a morte está acontecendo com a geração mais velha, com a geração da sua mãe e do seu pai e você pensa que ela está distante o suficiente para não afetar você. Mas você chega à nossa idade e de repente você está nos domínios dela.Você está prestes a perder amigos por todo lado. Eu olho para todo mundo sob uma luz diferente agora e penso ‘Tenho tanta sorte de estar com você’.
 

QueenVocê conseguiu levar algum tipo de vida normal durante os anos em que o Queen fez turnês e gravou sem parar?
QueenÉ muito difícil se adaptar de volta à vida normal. Eu era casado (com Chrissie Mullen) e tinha filhos e o casamento sobreviveu muito bem à toda a vida de turnês. Foi só quando eu parei com as turnês que as coisas desmoronaram, porque nós não conseguimos nos adaptar a levar uma "vida normal". Eu acho que não superei isso totalmente até hoje e foi – o quê? – há doze anos. As pessoas pensam que eu tinha me definido em termos de ser um astro do rock, mas eu me definia como um marido e um pai, acima de tudo. Você olha no espelho e fica completamente surpreso de ainda parecer uma pessoa inteira, porque você se sente como se não estivesse ali. Meu pai morreu mais ou menos na mesma época, e nós também percebemos que Freddie não estava bem, então, todo o meu mundo se desfez em vários pedaços. Esta casa é ótima agora; está cheia de pessoas e as coisas acontecem e eu adoro isso. Mas naquela época éramos apenas eu e a casa. Foi um ponto negativo. O Queen não estava fazendo turnê por aquela época e isso era uma estranha calmaria em tudo. Não havia distrações e você precisa de distrações. Estar ocupado é uma das grandes terapias, não é?
 

QueenExistiu alguma vez a questão de simplesmente voltar para a sua mulher?
QueenSim, a questão existiu, mas simplesmente não era possível – principalmente porque eu tinha me apaixonado por outra pessoa (Anita Dobson).
 

QueenMas Anita não morou com você nesta casa durante aquele período ruim.
QueenBem, para dizer a verdade, eu estava tão como que imbuído de moralidade e culpa e coisas assim, que embora eu amasse Anita, eu não conseguia admitir isso para mim mesmo. Eu pensava, isso é só um período por que você está passando, Brian – você só tem que ficar na sua por um tempo e deixar o rio correr. Eu não me permiti estar com ela.
 

QueenVocê não é católico, é?
QueenNão, é engraçado, meus pais não eram religiosos, eles eram apenas, eu suponho que "moralistas" é a palavra. Muito certinhos. Particularmente meu pai. As duas piores coisas que eu fiz aos olhos dele foram, um, desistir da minha carreira acadêmica (Brian um dia planejou uma carreira em astronomia) para me tornar um astro pop; e, dois, morar com uma mulher [sem casar]. Viria a ser a mulher com quem eu me casaria, mas para ele foi uma afronta. Nós mais ou menos não nos falamos por um ano ou tanto. Isso deixou minha mãe maluca.É muito irônico – meu pai estava sempre tentando me impedir de entrar no negócio de rock, mas ele construiu comigo a minha guitarra – a coisa que me empurrou para dentro disso.
 

QueenEntão me fale sobre esse homem muito moralista conhecendo Freddie Mercury. Quero dizer, presumivelmente, Freddie – vindo ele próprio de uma criação muito rígida – tinha sempre o melhor comportamento quando encontrava pessoas mais velhas.
QueenSim. Mas ele tinha sempre o pior comportamento em relação à própria mãe. Há muito o que entender sobre Freddie. Ele se dava bem com meu pai e sempre o respeitou. E respeitava seus próprios pais também, mas se a mãe dele viesse ao show, ele sempre diria ‘Oh, minha mãe está na platéia esta noite. Eu tenho que soltar uns xingamentos extras’. Parece engraçado mas há um lado sério nisso, porque Freddie foi um espírito livre mais do que qualquer um que já conheci – e esse é seu legado para nós. A maioria de nós se preocupa com ser impopular ou deixar as pessoas chateadas. Freddie – não, nunca. Se ele considerava que alguma coisa não era boa para ele, então ele apenas dizia não. Isso é um talento, e uma verdadeira força. Ele tomava as rédeas de sua própria vida, o que quer que isso lhe custasse.
 

QueenQuando você tomou as rédeas da sua vida?
QueenAinda estou tentando.
 

QueenO que é interessante sobre Anita e você é que todo mundo dizia que isso não iria durar – ''astro do rock foge com estrela de novela.''
Queen(Risos) Bem, eu acho que eu estou surpreso que tenha durado. Nós temos uma atração incrível um pelo outro, uma tremenda necessidade um do outro, que ninguém mais pode preencher, mas o tempo todo a vida está nos dizendo que isso não funciona, porque nós não gostamos das mesmas coisas, não gostamos de estar nos mesmos lugares. Eu nunca pensei que eu poderia estar com alguém que não gostasse do Led Zeppelin! E as coisas que ela gosta, eu acabo envolvido à força – você sabe, todo o mundo do teatro musical me deixava fisicamente doente, e às vezes ainda deixa. Mas eu me acostumei com isso agora por causa dela. Eu tenho aprendido tanto.Ela tem enriquecido minha vida além da medida.
 

QueenAnother World é um tipo de álbum muito otimista, muito ‘pra cima’. Este é um bom momento na sua vida?
QueenÉ uma pergunta difícil de responder. A resposta simples é não. Eu tenho tido sérias batalhas com a depressão. Parece estúpido, porque todo mundo pensa ‘pobre b***a rico’. Mas não faz nenhuma  diferença qual seja a sua situação. A depressão é uma espécie de paralisia que toma conta de você. Você sente que não pode se mexer, não consegue ver um caminho à frente que consiga suportar. Não estou assim agora porque estou ocupado, e estar ocupado é a melhor coisa.
 

QueenCom todas as coisas que você coleciona, com o livro que você quer escrever – você alguma vez vê a música ficar em segundo plano?
QueenNão, ela sempre vai ser a primeira. Ou melhor, é a número dois, porque número um são os filhos. (Brian tem três: Jimmy, 20, Louisa, 16, e Emily Ruth, 11). Minha tarefa mais séria é acertar isso. No momento, eu não consigo.
 

QueenMas eles não têm problemas com você, têm?
QueenOh, têm sim! Há um certo período em que eles têm que rejeitar você, eles têm que desprezar você – e isso é um grande choque. Eu sempre pensei que seria legal para mim ter sucesso. Eu não percebia que problema isso seria para meus filhos. Isso afeta a maneira como você faz amizades, o modo como os professores olham para eles. Eu sou uma espécie de área de perigo para eles - eu me dou conta disso e isso traz um monte de problemas. Ao ponto de, frequentemente, eu ter que não aparecer nos eventos da escola ou da faculdade porque causaria muito alvoroço. Eu era realmente ingênuo. Achava que seria legal para eles ter um pai famoso. Mas agora sei que não é.
 

QueenA raiz de toda essa infelicidade seria o fato de você não estar mais no Queen?
QueenNão, eu estou bem com relação a isso. Não é o maior problema. Às vezes você pensa, ‘Deus, seria legal estar na estrada com o pessoal mais uma vez’, porque as ofertas estão sempre aí. Mas eu sinto que não seria mais a mesma coisa: e não quero fazer nada que seja menos do que nós fomos. Eu prefiro deixar isso num nível alto. É frustrante porque, como Brian May, eu posso ir e tocar como eu tenho feito e me divertir muito. Mas vou tocar em teatros ou coisa parecida. Com o nome Queen, você era dono da cidade por uma noite. É um sentimento fantástico, e eu realmente sinto falta daquele imenso contato e senso de ocasião.


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