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(Apresentação)
Nick Horne: Brian May nasceu em 19 de julho de 1947 em Twickenham. O som distintivo da guitarra do Queen foi criado muito antes da banda ser formada, quando Brian, então um estudante de 16 anos, construiu sua própria guitarra com a ajuda de seu pai. Depois de terminar o curso secundário, May foi estudar astronomia e física no Imperial College de Londres, antes de rejeitar uma carreira na ciência por uma vida na música. Tendo formado a banda Smile com o baterista Roger Taylor, à dupla se juntaram o vocalista Freddie Mercury e o baixista John Deacon. Eles mudaram o nome para Queen e lançaram seu álbum de estréia com este mesmo nome em 1973.
Excepcionalmente prolífico, o Queen seguiu seu álbum de estréia com o Queen II em 1974, e Sheer Heart Attack em 1975, mas foi o quarto álbum, A Night At The Opera, que os catapultou para o sucesso internacional. Do qual eles sentiram o gosto pela primeira vez com o pioneiro single "Bohemian Rhapsody". Tão bem sucedido com singles quanto com álbums, entre 1974 e o presente o Queen alcançou a marca de 23 álbums de sucesso. Nove deles chegaram ao topo das paradas. Enquanto os quase 50 singles na parada dos Top 40 incluem os sucessos "Under Pressure", "Innuendo" e "These Are The Days Of Our Lives".
Após a trágica perda de Freddie Mercury em 1991, Brian May, John Deacon e Roger Taylor se empenharam em levantar dinheiro para grande número de obras assistenciais, sendo as mais conhecidas aquelas que apoiam a conscientização sobre a AIDS. Com essa finalidade, eles fizeram um Concerto pela Vida no Estádio de Wembley, onde a eles se juntaram vários astros convidados incluindo George Michael, David Bowie, U2, Elton John e Liza Minnelli. Enquanto é certo que o Queen não vai continuar sem Freddie, Brian May tem prosseguido em sua carreira solo que começou em 1983 com seu Star Fleet Project. Mais notadamente com o álbum de 1992, Back To The Light, que rendeu dois singles de sucesso: "Driven By You" e "Too Much Love Will Kill You", e seu mais recente trabalho, "Another World". Sem dúvida, o Queen foi uma das bandas de maior sucesso de todos os tempos. Como compositores e músicos, eles gravaram múltiplos discos de platina e receberam numerosos prêmios; enquanto como atração ao vivo eles não ficavam em segundo lugar para ninguém, claramente evidenciado por sua apresentação que roubou o show no Live Aid. Como guitarrista, Brian May é um ícone para os aspirantes a músicos, e com um som, estilo e técnica inconfundíveis, Brian May é considerado o guitarrista mais influente de sua geração.
Nick Horne: Bem, Brian, bem-vindo, eu devo dizer.
Brian May: (batendo palmas) Isso foi bom mesmo, obrigado Nick.
Nick Horne: Obrigado. Na verdade Phil Ward-Large escreveu isso tudo.
Brian May: Obrigado, pessoal.
Nick Horne: É realmente bom ver você de novo, eu tenho que dizer. Você está com um disco novo, e no mês que vem vai fazer alguns shows aqui no Reino Unido pela primeira vez em cinco anos.
Brian May: Isso mesmo.
Nick Horne: Vamos começar com o novo álbum. Muita coisa para conversarmos esta noite. Another World. O título do álbum é meio uma declaração da sua parte?
Brian May: Hum, o título é um título. Sim, ele é uma declaração, de muitas maneiras. Você vai me perguntar que declaração é essa, não é?
Nick Horne: Sim.
Brian May: Bem, obviamente…
Nick Horne: Seguir em frente?
Brian May: Há uma espécie de esforço constante para ir em frente, sim, definitivamente, de todo modo, e eu acho que esse é o verdadeiro desafio. Eu não acordo todo dia de manhã pensando "Wooopiii, eu fiz parte do Queen!", sabe, ou "Eu sou famoso!" ou algo assim. Eu penso apenas "O que eu tenho para dizer hoje? Que sentido tem a vida hoje?" e o álbum é sobre isso. Esse sempre foi meu assunto, eu suponho. Eu me sinto da mesma forma que me sentia tinha, não sei, uns vinte anos e estava começando no Queen. Há coisas para dizer, coisas para fazer e problemas para resolver.
Nick Horne: Mas de fato, quando falarmos daqui a pouco na entrevista, claramente onde você está agora é influenciado por onde você esteve e pelas experiências que teve.
Brian May: Hum hum.
Nick Horne: A primeira coisa que me impressionou ao ouvir este novo álbum é que ele é muito diferente em estilos. Quero dizer, parte dele é muito otimista e parte tem um clima mais sombrio. Você concorda?
Brian May: Sim, eu acho que ele cobre toda a gama, e acho que ele reflete a vida como eu a vejo, como um pintor faz, sabe, você pinta o que você vê. E também como a sua mente processa isso, e eu vejo isso como um enorme percurso - como uma imensa montanha-russa, eu acho. Então tento colocar cada emoção ali, e compratilhá-la à medida que a coisa avança.
Nick Horne: Mas isto espelha as suas emoções também? Às vezes muito para cima e às vezes muito para baixo?
Brian May: Sim, definitivamente sim.
Nick Horne: Porque você recentemente disse numa entrevista, foi numa entrevista com o Daily Record, você disse: "Sou uma pessoa muito caótica. Há vezes em que estou muito para cima, e outras quando acho muito difícil fazer qualquer coisa".
Brian May: É, até mesmo levantar da cama.
Nick Horne: Até levantar da cama?
Brian May: É (rindo um pouco), isso mesmo. Eu realmente acho difícil. Acho que a única coisa que se pode fazer é vivenciar isso tudo até o limite, sabe, tem vezes em que você se sente realmente triste e… isso faz parte… faz parte da vida, e então você encontra a saída e eu creio que a alegria que você tem ao encontrar uma saída é maior por causa disso.
Nick Horne: OK, nós vamos falar mais sobre esse aspecto da sua psique daqui a pouco. Mas agora acho que vamos fazer um breve intervalo e depois voltar com a primeira ligação para você e também uma faixa do novo álbum.
(O primeiro ouvinte a ligar é Steve, de Derbyshire. São feitas as saudações)
Steve: Eu realmente cheguei a encontrar Freddie, então este é realmente o meu maior prazer desde então.
Brian May: Oh, ótimo.
Steve: Absolutamente maravilhoso. Eu gostaria de lhe agradecer por anos de prazer e entretenimento.
Brian May: É muito gentil, obrigado.
Steve: Quero dizer, eu cresci com o Queen, e vocês me acompanharam por tantos altos e baixos e todas as vezes que eu estava mal, eu sempre punha o Queen para tocar e vocês me puxavam para cima.
Brian May: Obrigado. Eu acho que é essa a esperança que temos. Essa ainda é uma das coisas que me faz querer fazer música. Fico feliz que você diga isso, obrigado.
Steve: Sem tomar muito do seu tempo, você poderia nos dar uma idéia do que Roger e John estão fazendo por estes dias?
Brian May: Sim, eles estão os dois muito ocupados a seu próprio modo. Eu converso bastante com Roger. Ele é viciado em trabalho, como eu, e tem estado trabalhando num disco que deve sair em breve, acho que nos próximos dois meses ou algo assim. Eu não tenho idéia do que está no disco, porque nós temos estado bastante separados no que diz respeito a coisas de música recentemente. Mas nos damos muito bem a nível pessoal, o que é bom. John é na verdade muito mais orientado para a família, e até onde eu sei não tem estado envolvido em muita coisa a ver com música, a não ser essa coisa recente do Wycliffe. Não sei se você sabe, mas esse cara é um rapper e ele fez uma nova versão de "Another One Bites The Dust", que está em tudo o que é rádio americana no momento. Eu acabo de voltar de Los Angeles. Hum… Então, eles estão ambos indo bem. Roger e John são ótimos e nós nos damos muito bem, e é isso.
Nick Horne: Brian, você começou este disco com a idéia de fazer um álbum de covers de rock'n'roll, meio que revisitando as suas raízes? Qual foi a idéia original?
Brian May: Sim, em algum momento. Esse disco passou por muitos estágios diferentes, e esse foi um dos conceitos em determinado ponto, foi o que me ocorreu por um certo período. Eu terminei a turnê, minha própria turnê da vez passada… que foi realmente meu tipo de terapia depois que Freddie se foi. Rodei o mundo com a Brian May Band como ela era então, e depois o que fizemos foi voltar direto para a área do Queen porque nós fizemos o álbum Made In Heaven, e no final dele - que foi dois anos de trabalho duro e um negócio fortemente emocional - eu meio que não sabia quem eu era novamente. Sabe, eu tinha dado esse grande passo para fora do Queen no primeiro álbum e na primeira turnê, e então lá estava eu de volta vestindo a camisa do Queen e pensando "Que diabos foi isso tudo?". Então eu mergulhei nisso, em revisitar as coisas que tinham feito eu me ligar bem no início, muito antes do Queen, e comecei a olhar todas essas coisas que tinham me estimulado quando eu era um garoto, como os discos de Buddy Holly e Little Richard e Elvis, e todos aqueles guitarristas que estavam lá, como os discos de Ricky Nelson e coisas assim. E esse era o meu pequeno… essa era um pouco o meu projeto naquele momento; e eu pensei "é, esse álbum provavelmente vai ser um monte de covers". Mas chegou a um ponto em que eu me dei conta de que aquilo não era bom o bastante, simplesmente não tinha a ver comigo o bastante, e então eu comecei a procurar. A outra decisão que eu tinha tomado era de que eu iria cair no mundo e interagir com as pessoas. E interagindo com pessoas como gente de cinema, de rádio, gente de televisão, eu encontrei muita inspiração para o meu próprio material original. Então chegou a um ponto… realmente a crise veio quando "No-One But You" se tornou uma faixa do Queen. Eu escrevi "No-One But You" para esse álbum, e ela era realmente sobre Freddie, era o último "herói" do álbum eu acho, e quando ela se tornou uma faixa do Queen e nós a colocamos no Queen Rocks, eu percebi que a tinha perdido para o meu álbum. E pensei, "bem, de qualquer forma o conceito todo não funciona, e isso é provavelmente uma coisa boa". Então me concentrei apenas no material original e segui a partir dali.
Nick Horne: Bem, vamos falar de raízes. Você estava falando sobre isso aí, focalizar nas suas raízes. Você é filho único. Aos 11 anos ganhou uma bolsa de estudos para a Hampton Grammar School, garoto inteligente, muito acadêmico. Você ganhou seu primeiro violão quando tinha sete anos - foi amor à primeira vista?
Brian May: Ah, sim, definitivamente. Ele era bem maior do que eu na época (rindo). Ótimo violão, eu me lembro de ganhá-lo e de acordar na cama e lá estava ele, essa coisa monstruosa que eu quase não conseguia pôr meus dedos em volta. Eu adorava a coisa. Eu adorava a sensação e o cheiro dele. Eu ainda posso…
Nick Horne: Sentir o cheiro.
Brian May: Eu ainda tenho isso na minha mente. O tipo de cheiro de verniz novo desse violão quando ele apareceu.
Nick Horne: E depois, como se sabe, seu pai fez a guitarra que levou dois anos para construir. Você finalmente foi para o Imperial College, se graduou como bacharel com distinção em física e matemática. Mas você meio que já flertava um pouco com bandas, e quando estava fazendo o doutorado abandonou a universidade para se dedicar à música.
Brian May: Isso mesmo.
Nick Horne: A pergunta que eu gostaria de fazer sobre isso é: naquela época, você se angustiou sobre essa decisão?
Brian May: Não tanto quanto eu me angustio hoje. Eu acho que não. Eu era meio fatalista com relação a isso, e apenas segui todos os caminhos até onde eu pude. Eu estava fazendo três coisas ao mesmo tempo, naquele momento, que você poderia chamar momento de crise. Eu estava a todo vapor fazendo meu doutorado, tentando escrever a tese; estava a todo vapor dando aulas numa escola ginasial em Brixton e estava ao máximo ensaiando com o Queen, e está tudo bem quando você tem 21 anos ou algo assim, você consegue fazer isso. (Rindo) Eu não gostaria de fazer isso agora.
Nick Horne: Tendo estado lá, feito isso…
Brian May: Exatamente, e aí simplesmente chegou ao ponto em que isso se tornou demais ou coisa parecida, sabe, e eu pensei "se eu não aproveitar esta oportunidade agora de seguir com a banda, então eu vou me arrepender para o resto da minha vida". E foi simples assim. Não me lembro de nenhuma angústia, não, eu simplesmente fui.
Nick Horne: Seus pais, o que eles acharam?
Brian May: Houve uma certa angústia aí, sim. Eles não estavam muito contentes. Mas eles não estavam muito contentes de qualquer modo, sabe. Eles achavam que eu estava jogando a minha vida fora, morando com a minha namorada que depois se tornou minha esposa e aparentemente jogando fora toda essa sequência de educação acadêmica, para me tornar o que eles pensavam que era um astro pop.
Nick Horne: Então deve ter havido algumas grandes discussões?
Brian May: É, foi um período difícil com meu pai e tudo, que eu lamento. Nós poderíamos ter nos comunicado muito melhor naquela época, tenho certeza. Mas eu meti a cara, eu tinha que fazer isso. Quero dizer, realmente não havia escolha. Eu tinha isso no sangue e tinha que fazer.
Nick Horne: Você sabia que tinha que fazer isso?
Brian May: É.
Nick Horne: É claro que o caminho de uma banda de rock da obscuridade ao sucesso nunca é plano. Vocês se envolveram com Norman e Barry Sheffield, donos dos estúdios Trident. Você está sorrindo porque eles eram carinhosamente conhecidos como os Piranha Brothers do mundo da música. Eles eram um pouco tipo o Arthur Daly do East End (uma novela de TV britânica - N.T.), quer dizer, eles tinham essa reputação de ser figuras do tipo Arthur Daly, negociantes que só pensam em levar vantagem.
Brian May: Estou deixando você falar.
Nick Horne: Não, tudo bem.
Brian May: (Risos)
Nick Horne: Bem, eu vou fazer uma pergunta sobre isso. Vindo de uma criação de classe média, fazendo doutorado e todo esse tipo de coisas e abandonando a universidade, com toda a angústia que isso trouxe em relação aos seus pais, e você se envolveu com esses tipos East End… que nós dois conhecemos… Você se sentiu confortável com esse relacionamento?
Brian May: Não era um relacionamento confortável, isso tem que ser dito. Era briga todo dia, de um jeito ou de outro. Nós estávamos muito frustrados. Olhando para trás agora, eu acho que posso estar perdoando, sabe, eles tinham o ponto de vista deles. E o ponto de vista deles era de que eles tinham que ganhar algum dinheiro conosco rápido, e acho que eles não entenderam que leva anos de investimento antes que se possa ter retorno financeiro. Provavelmente não foi culpa deles. Mas foi um relacionamento difícil. Nós estávamos muito frustrados, sentíamos que não tínhamos nenhum controle artístico. Também estávamos numa situação em que o lado dos negócios era completamente amarrado por uma mesma pessoa exercendo várias funções. Quando o seu empresário e a sua gravadora e o seu editor ou coisa assim são uma mesma pessoa, você não tem uma perna para se apoiar, sabe, você não tem nenhuma representação em certo sentido. Então eu sinto muito por qualquer um que esteja nessa situação no momento. Acontece com muita gente. E tivemos que brigar para sair e… finalmente o resultado foi que tivemos que comprar nossa saída, porque não tínhamos sido bem assessorados quando os contratos foram feitos, então nós virtualmente demos os três primeiros álbums para sair daquele negócio.
Nick Horne: Onde eu estou querendo chegar é que, realmente, você veio dessa criação de classe média e dessa experiência acadêmica e de repente se envolve nesse tipo de… vale tudo do meio musical muito rapidamente. Eu estava me perguntado como isso afetou você.
Brian May: Entendo o que você quer dizer. Bem, talvez não tenha me afetado tanto quanto você pensa, porque na verdade o relacionamento básico era dentro da banda. As pessoas com quem eu passava o tempo eram Freddie, John e Roger, e nós tínhamos muito uma espécie de causa comum e uma espécie de paixão compartilhada; e era aí que a maior parte do tempo era gasta. Havia apenas alguns momentos fora do comum quando nós meio que olhávamos para essa situação de empresariamento e para o mundo lá fora. Nós tínhamos uma crença tão grande em nós quatro que eu acho que isso nos amorteceu de tudo aquilo de certa forma.
Nick Horne: E aí, é claro, veio o grande estouro, "Bohemian Rhapsody". Uma gravação distinta de qualquer outra ouvida antes. E também um vídeo, que é agora reconhecido como o primeiro vídeo pop, dirigido por um cara chamado Bruce Gowers. Eu sempre quis lhe perguntar isso e nunca perguntei. Esse vídeo foi uma peça de marketing inspirada ou foi apenas um brilhante golpe de sorte inacreditável? Alguém tropeçou na idéia do vídeo?
Brian May: Bom, ele aconteceu porque nós nos sentimos desconfortáveis de ir e fazer mímica no "Top of The Pops" (um programa de música da TV inglesa - N.T.), que é na verdade a origem disso. E particularmente com essa gravação nós pensamos "Vamos parecer realmente estúpidos se ficarmos lá de pé e fingirmos tocar isso", porque ela era… é como uma pintura em tape. Não é algo como uma performance ao vivo. Então foi nossa idéia fazer o vídeo para que não tivéssemos que ir lá. Esse foi o pensamento, porque eu acho que "Top of The Pops" estava apenas começando a mostrar clips. Então realmente ele foi feito muito rápido e muito barato, mas as idéias estavam lá. Nós tínhamos na cabeça todas essas pequenas seções, tipo trazer a capa do Queen II à vida para o começo, e depois a parte ao vivo no começo. Foi tudo fácil de fazer. Estávamos nos preparando para uma turnê, então a parte ao vivo foi fácil de fazer - arruma tudo ali, põe umas bombas de fumaça (risos). E eu me lembro de ver o esboço da edição num quarto de hotel na turnê, e nós rimos e pensamos "É, está mais do que bom, está tudo aí, é exatamente o que nós queremos. É engraçado", e é isso. Não foi alguma coisa que levamos muito a sério como um trabalho de arte, para ser honesto.
Nick Horne: Mas de fato, quando se ouve a gravação hoje, na verdade nós vamos ouvir um pedacinho… (Brian começa a rir) Sempre me vem à mente as imagens do vídeo. É o que eu vejo.
Brian May: Hum hum, é.
Nick Horne: Vamos ouvir, só um pedacinho…
Brian May: Pronto, já é o suficiente! (Antes começarem a tocar a música)
Nick Horne: "Bo Rhap" (Brian rindo baixo - tocam apenas o primeiro verso)
(O segundo ouvinte a telefonar é Gavin, de Cardiff. São feitas as saudações)
Gavin: Como você fez para melhorar a sua voz no último álbum, Another World?
Brian May: Ah, você acha que melhorou?
Gavin: Sim, comparado a Back to The Light, sim, definidamente.
Brian May: Ah, obrigado. Eu levei um bocado de tempo, e cantei, cantei, cantei. E acho que levei provavelmente vinte vezes mais tempo fazendo os vocais do que com as guitarras neste álbum. É, eu estava com um desejo muito forte de fazer isso direito. E suponho que estando no estúdio, eu tenho meu próprio estúdio agora, então você tem o luxo de poder fazer isso um monte de vezes, depois ir ouvir e ser muito crítico. E dia após dia você pode continuar até achar que está tendo progresso. Então às vezes eu cantei até sangrar. Eu estava determinado. Quero dizer, muito à maneira do Freddie. Freddie não achava assim tão fácil cantar no início, e ele trabalhou sobre si mesmo, então é o que eu estou fazendo agora, na verdade.
Nick Horne: Mas obviamente você tem muita segurança quando se trata de pegar sua famosa guitarra.
Brian May: Hum hum.
Nick Horne: Mas claramente não tem a mesma segurança nas suas habilidades vocais?
Brian May: Estou trabalhando nisso. E estou contente, sabe, a maioria das pessoas tem dito que a voz soa forte nesse álbum e essa era realmente a minha prioridade. Porque, para dizer a verdade, mesmo com o Queen eu tinha os mesmos sentimentos que tenho sobre o que faço agora. Em primeiro lugar está a música. Se você não tem uma música decente - esqueça. Em segundo lugar está o cantor, porque se você não tem um cantor decente para interpretar a música - de novo, esqueça. Pode-se tocar o mais fantástico solo de guitarra do mundo e ele não significa nada. E depois dessas duas coisas você tem a produção e a guitarra e tudo o mais, mas eu estava determinado que a voz seria algo que daria conta do necessário sentimento e da paixão e coisas assim. Então, obrigado por dizer isso, Gavin.
Nick Horne: São seis e meia e Brian May está conosco. Brian, eu gostaria de voltar e falar novamente sobre o novo álbum, Another World, mas para colocá-lo no contexto, eu gostaria de conversar um pouco mais sobre o seu passado. Porque, é claro, ele tem uma grande influência.
Brian May: OK.
Nick Horne: A doença e a morte de Freddie obviamente tiveram um efeito profundo em você. E no seu trabalho. Quando você percebeu que havia algo errado com Freddie?
Brian May: Bem cedo, eu acho. 86 foi a última turnê que fizemos e terminamos com aqueles concertos no estádio de Wembley e em Knebworth, e naquele ponto Freddie disse: "Não posso mais fazer isso" e aquilo era realmente muito incomum da parte dele. Acho que tivemos uma pequena suspeita então. Tenho certeza de que ele sabia de tudo àquela altura, e provavelmente antes. Provavelmente quando estávamos no começo daquela turnê, e talvez mesmo antes. Mas não se falou sobre isso abertamente por um longo tempo, sabe, foi uma escolha dele e nós não queríamos trazer o assunto à tona se ele não quisesse. E foi, acho que uns dois anos depois ou algo assim, que ele finalmente disse: "Olha, vocês provavelmente percebem qual é o meu problema". E naquele momento nós não ousamos…, sabe, simplesmente não se queria falar sobre isso. Era terrível demais para pensar. Mas havia alguns sinais àquela altura e ele disse: "Não quero falar sobre isso, isto é, estamos tendo esta conversa agora. Não quero que isso se torne o centro da minha vida, não quero vender discos por causa de solidariedade. Vamos apenas continuar como se as coisas estivessem normais e é isso que eu quero fazer até pifar".
Nick Horne: Uma das coisas que sempre achei difícil de compreender é que era bem conhecido no meio musical que Freddie estava muito doente, e ainda assim a banda e a parte empresarial sempre negaram isso. De fato, não apenas negaram, mas realmente ficaram calados a respeito.
Brian May: É.
Nick Horne: E se criou um certo ar de mistério sobre isso, que então meio que alimentou a si mesmo. Mais ou menos como o Pink Floyd se recusando a dar entrevistas anos atrás, essa espécie de aura de mistério em torno deles. Por que não dizer a verdade? Quando pessoas como Kenny Everett tinham falado sobre sua própria doença bem abertamente…
Brian May: Para dizer a verdade…
Nick Horne: Foi tomada a decisão de ficar em silêncio ou negar?
Brian May: Foi inteiramente uma decisão do Freddie. Era uma coisa dele, ele era o cara que estava sofrendo.
Nick Horne: Certo.
Brian May: E o ponto de vista dele era de que, se ele começasse a falar a respeito, a vida dele se resumiria a isso, sabe, e perto do fim, quando isso já era bem conhecido, a vida dele foi uma miséria total. Tinha gente com lentes teleobjetivas apontando para as janelas do banheiro e coisas assim, e ele não podia entrar, não podia sair. Nós não conseguíamos ir vê-lo sem sofrer esse ataque da imprensa, e teria sido assim o tempo todo se ele tivesse revelado isso naquela época. Sim, foi totalmente uma decisão dele, mas acho que foi a decisão certa. Ele queria que a vida fosse normal. Queria criar. Ele adorava fazer música e no estúdio nós tínhamos esse agradável tipo de… perto do fim nós ficamos cada vez mais próximos porque havia essa espécie de união; e nos recusamos a contar a quem quer que fosse o que estava acontecendo. Não, não havia qualquer sentimento de tentar criar um mistério. Fico surpreso de que você diga isso. Apenas aquilo foi necessário para que conseguíssemos…
Nick Horne: Não, não estou dizendo que foi feito deliberadamente. Mas estou dizendo que, só por manterem silêncio, um ar de mistério como que envolveu isso.
Brian May: É? (com desconforto)
Nick Horne: O que, tenho certeza, não foi a intenção de vocês.
Brian May: Bem, não, acho que isso é melhor do que toda aquela arremetida violenta da imprensa. Sabe, os jornais teriam ficado em cima disso o tempo todo, todos os dias.
Nick Horne: Posso falar um pouco mais sobre os seus sentimentos com relação a isso? Porque então vocês tiveram que fazer o álbum Made In Heaven, vocês fizeram o Made In Heaven, e sabendo desse… desse grande vínculo e amizade entre você e Freddie… Eu acho que ninguém pode realmente imaginar o que deve ter sido fazer esse álbum.
Brian May: Uma coisa muito estranha, sim. Isso estava lá como um pano de fundo o tempo todo, e acho que Freddie realmente não queria falar a respeito em suas letras, mas ficava feliz que nós o fizéssemos, de um modo meio velado. E nós estávamos todos conscientes do que estávamos enfrentando, eu acho, mas era ele quem realmente tinha aquilo dentro dele e estava passando pelo sofrimento. Sabe, muito sofrimento psicológico e um enorme sofrimento físico… é o mais terrível modo de morrer que há no mundo, me parece. E nós não podíamos ajudar. Tudo o que podíamos fazer era tentar e compartilhar a jornada que ele estava fazendo e, acho que particularmente Roger e eu tentamos por isso em palavras de várias maneiras, e na música. Era uma sensação estranha, porque obviamente você não quer ser completamente claro a respeito, você quer falar em termos gerais, caso contrário, leva-se a conclusões apressadas novamente. Então "Innuendo" tem toda uma preocupação com vida e morte e uma visão disso.
Nick Horne: Eu me pergunto como foi para você, ir para casa depois de um dia duro no estúdio, ordenar tudo isso, sabendo disso, da situação de Freddie. Seus sentimentos. Só estou tentando entender como foi para você. Deve ter sido…
Brian May: Não acho que eu seja sequer capaz de dizer a você, para falar a verdade. Acho que não é possível detalhar isso em alguns minutos. Você passa por muitos estágios diferentes. No começo, você ainda não acredita, pensa que é alguma espécie de jogo dentro de você, eu acho. Você pensa "não, isto não pode ser real". E depois você está meio que lidando com a morte, antes dela ter acontecido. E você fica com raiva, fica triste, e era uma sensação estranha não poder contar nem para as pessoas mais próximas e mais queridas. Como eu não contei aos meus pais, nem aos meus filhos… era algo totalmente e absolutamente privado entre nós quatro. E… uma sensação estranha…
Nick Horne: Um peso enorme para vocês?
Brian May: É. Tinha coisas ótimas também, quero dizer, havia grande alegria ali, por estranho que pareça, por causa do que o estúdio nos dava. Ele tinha sempre sido um lugar seguro para nós. Sim, nós brigávamos e nos despedaçávamos (risos), mas o mundo ficava do lado de fora e isso foi muito precioso para o Freddie durante todo aquele tempo, eu acho. Ele adorava, ele se divertia muito. Você pode ouvir coisas como "Was It All Worth It" e "Winter's Tale" e coisas assim, em que ele está apenas fluindo e… de alguma maneira era uma alegria ser parte daquilo. Muito puro.
Nick Horne: Freddie era uma grande presença, tanto na vida quanto na morte. Deve ter sido um tanto difícil para você seguir em frente. Quero dizer, no sentido de que Freddie era um pouco como o fantasma de Banquo (personagem da peça Macbeth, de Shakespeare - N.T.) de certo modo. (Brian ri um pouco, parecendo concordar com a analogia) Essa é uma descrição precisa?
Brian May: Acho que eu quero mais é que isso leve a gente a aceitar a morte como um conceito, e na própria vida. Todos vamos morrer, Nick. Não é que talvez morramos. Isso é o que a se pensa quando se é criança, "ah, talvez não aconteça comigo". Você e eu, você sabe e todos sabemos que vai acontecer, então você começa a pensar "O que significa isso? O que eu tenho que alcançar antes que eu morra? Freddie está lidando com isso agora mesmo, de um modo muito positivo. Peço a Deus que eu consiga lidar também, quando eu souber que a hora vai chegar".
Nick Horne: Ok, mais uma questão sobre este assunto e depois vamos em frente. Porque depois da morte de Freddie você se tornou, em suas próprias palavras, um viciado em trabalho, participou como convidado em um monte de álbuns diferentes. A gente fica com a impressão de que foi como a estratégia de atirar para todos os lados, sabe, de fazer qualquer coisa, quase como um tipo de terapia.
Brian May: Isso foi uma grande alegria para mim também, porque o Queen - embora tenha sido maravilhoso para nós, um grande veículo, uma ótima maneira de dar a volta ao mundo com estilo e fazendo tudo grandioso - mas era um tipo de coisa muito constritiva, não conseguíamos sair e fazer nenhuma outra coisa. Era completamente envolvente. Então de repente o Queen não está mais aí, e eu penso, bem, o lado positivo disso é que eu posso sair e fazer todo tipo de coisas. E eu deliberadamente meti a cara e fiz a festa. Me diverti muito fazendo isso.
Nick Horne: Porque, como eu digo, tem-se a impressão de que foi a estratégia de atirar para todos os lados, mas depois, é claro que você começou a focalizar - e nós voltamos a falar sobre o seu álbum agora - você começou a focalizar em fazer este projeto. Houve uma espécie de momento de definição, quando você de fato pensou "certo, agora estou numa posição onde posso realmente trabalhar o meu próprio material"?
Brian May: Sim.
Nick Horne: Em vez de participar como convidado para outras pessoas. Aconteceu alguma coisa?
Brian May: Por estranho que pareça, acho que foi a experiência com o Sliding Doors que de certa forma pôs isso em foco para mim. Eu estava buscando várias coisas e tinha feito um monte de faixas para outras pessoas, como jogos para computador, filmes, sei lá, TV ou coisas assim. E então esse cara que escreveu Sliding Doors, que é um velho amigo meu, veio e disse: "Brian, você escreveria uma música para esse filme?" Ele me deu o script, eu fiquei muito inspirado e compus, e a música foi chamada "Another World". Eu a escrevi meio que de um dia para o outro, e dei a ele, e ele ficou animadíssimo, pulando, e falou "É isso o que precisamos para o filme. Esta é perfeita". Para encurtar a história, não tive mais notícias dele durante os seis meses seguintes. E ela não entrou no filme.
Nick Horne: Isso é o rock'n'roll.
Brian May: Típico de filmes, também. Porque o filme foi adquirido por uma empresa de música, e eles queriam o próprio pessoal deles lá. Então minha música não foi usada. Mas - eu tinha a minha música, e isso foi um verdadeiro catalisador para mim. De repente eu me dei conta de que com frequência você escreve uma música para alguma outra coisa, mas está escrevendo sobre si mesmo. Está escrevendo o que você sente sobre a vida. E pensei "bem, esse álbum todo tem mesmo levado a esse lugar". Sabe, eu meio que já pus isso em palavras na música "Another World". E depois eu pensei "bom, é hora de fechar a porta e deste ponto em diante apenas faço o meu álbum". E isso foi há mais ou menos um ano e meio, eu acho, e apenas me concentrei no meu próprio material.
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