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Entrevista com Brian May na revista Guitar Player de julho de 2000
Capa da revista Guitar Player
Editorial da revista Guitar Player Em Português de julho de 2000:

Enfim, Brian May

QueenEntrevistar Brian May era um sonho antigo: da Guitar Player, pelo prazer de conversar com um dos maiores guitarristas de todos os tempos e tê-lo em nossas páginas; e dos leitores, que em cartas pediram uma matéria com o ex-Queen. Falamos com May por telefone. Satisfeito por ser entrevistado para uma publicação brasileira (ele não esconde sua admiração pelo Brasil) o guitarrista foi simpático e mostrou boa vontade ao responder as perguntas. Ele, inclusive, elogiou o teor das questões.
QueenO bate-papo tomou o rumo das emoções. Brian May abriu seu coração e revelou seus sentimentos em relação à guitarra.
 
 

Pegada com Sentimento

Em entrevista exclusiva, Brian May conta os segredos de seu som, seus planos e porque faz música.

QueenA palavra que melhor define o estilo de Brian May é sentimento. Nada de mil notas por segundo, nada de exaltação da técnica. Ele escreveu seu nome na lista dos melhores guitarristas de rock da história procurando emocionar as pessoas. E conseguiu. Quando tocava no Queen, compôs músicas inesquecíveis - como We Will Rock You, Keep Yourself Alive, I Want It All, The Show Must Go On - e criou solos marcantes, como os de Crazy Little Thing Called Love, e Killer Queen. Seu talento também está em discos solo, como Another World, de 1998, seu mais recente lançamento. O estilo de Brian May é melódico e romântico, mas, ao mesmo tempo, ele é capaz de criar bases cheias e furiosas. O guitarrista toca vibratos e bends de maneira especial e inventou uma forma inconfundível de usar delays. Seu timbre característico vem de sua pegada e da guitarra Red Special que ele construiu com seu pai, ligada em amps Vox AC30. 


David Hepner, Jaques Molina e Vera Kikuti, Revista Guitar Player, Julho 2000

"A guitarra é um instrumento muito expressivo, ela sabe como você se sente e irá transmitir isso."
-----------------------------------------------------------------------------------Brian May


QueenA Guitar Player conversou pelo telefone com o guitarrista, que revelou seus sentimentos em relação à música, à guitarra e, principalmente, à vida.
 

Repórter: Além de você ser um grande guitarrista, suas composições marcaram a história do rock. Onde encontra inspiração para compor?

Brian May: A inspiração vem da vida, dos sentimentos, dos relacionamentos. Não conheço outra maneira de escrever que não seja sobre o que sinto. Não componho ficção pura, misturo fatos reais com ficção. Ao cantar sobre essas experiências, tento construir uma ponte com as pessoas. Uma das maiores recompensas da minha vida acontece quando dizem pra mim: "Depois que ouvi sua música, percebi coisas que me levaram a outro nível em minha vida." Isso é melhor do que quando falam que toco bem guitarra.

Repórter: Você parece ser uma pessoa bastante racional, pois estudou Matemática, Física e Astronomia. No entanto, seu estilo é bastante intuitivo e romântico. Como equilibra seu lado racional com sua intuição?

Brian May: No ser humano, existe uma batalha entre o racional e o intuitivo. Fui educado de maneira lógica. Sempre pensei que os problemas do mundo pudessem ser resolvidos com lógica. Até que me dei conta de que não importa o quanto você racionaliza, alguma coisa dentro de você dá uma resposta diferente. Esse é o início de toda arte. A música, a pintura, a escultura, a poesia podem expressar coisas que a lógica e as equações não conseguem. A arte nos alivia das frustações da vida. Às vezes reclamo ou fico deprimido, mas sei que isso faz parte do que faço.

Repórter: Como cria seus solos?

Brian May: Em certos casos, a estrutura da música sugere o solo, mas tento caminhar de forma intuitiva, interpretenado o que sinto, na gravação, geralmente acerto nas primeiras 3 ou 4 tomadas, depois, trabalho no que não ficou correto. Mas o sentimento está sempre presente. No palco acontece o contrário, nunca vou tocar igual, porque as emoções são diferentes. A guitarra é um instrumento muito expressivo, ela sabe como você se sente e irá transmitir isso. Às vezes, não me aventuro e toco parecido com a extrutura da música, e em outras, sinto-me inspirado e exploro algo distinto. É difícil explicar.

Repórter: O que é um bom solo?

Brian May: Qualquer um de Jimi Hendrix. Os solos de George Harrison também são inspiradores. Ele tem um vocabulário enorme.

Repórter: Existe algum solo com o qual você ficou satisfeito, não só tecnicamente, mas por ter atingido um objetivo?

Brian May: O de Killer Queen que toco cada parte com sentimento. Esse solo nunca foi escrito ou planejado para sair daquele jeito, mas eu estava ciente da estrutura à medida que tocava.

Repórter: Até que ponto ter construído sua própia guitarra ajudou a moldar seu estilo?

Brian May: Iniciei-me com um violão barato, no qual coloquei captadores. Comecei a definir meu estilo nessa época. Enquanto construía a Red Special, eu sabia o que queria dessa guitarra. Nós a fizemos semi-sólida, por isso ela é um instrumento vivo. Como a música, parte dela foi planejada e parte foi inspiração. A Red Special é muito importante emocionalmente, porque a construí com meu pai e a guitarra me faz sentir perto dele. Além disso, seu som é um pouco diferente de tudo que existe por aí. Ela possui um timbre quente, não gosto de coisas que machuquem o ouvido. A Red Special proporciona uma sonoridade ótima para ligados melódicos e possui boa articulação. Tive sorte por encontrar a combinação certa de guitarra e amplificador. Tenho o Vox AC30 e, entre a guitarra e o amp, uso só um pequeno pedal de "booster".

Repórter: O "Treble Booster" ?

Brian May: Sim. O pedal empurra o amplificador até o ponto exato onde ele entra em saturação. O som não fica embolado e não se torna comprimido demais. Gosto desse timbre, em que acordes soam bem e "single-notes" cantam. Sempre quis que minha guitarra soasse como uma voz humana.

Repórter: Como regula seus amplificadores?

Brian May: Alguns dos meus AC30 foram modificados, por isso eles só têm controles essenciais. Em vez de cirtuitos...

Repórter: No encarte do CD Another World, você diz que está buscando o sentido de tudo. O que quer dizer com isso?

Brian May: Ainda busco o sentido da vida. A vida continua me desconcertando.

Repórter: Qual é o papel da guitarra e da música nessa busca?

Brian May: Sinto-me feliz quando posso compartilhar sentimentos com as pessoas. Não sou o melhor guitarrista do mundo, mas gosto de fazer coisas que mexam com elas.

Repórter: Você tem experiência com música para cinema, teatro e comerciais de televisão. Como pensa nesses casos, em que a música se relaciona com imagens?

Brian May: É uma área empolgante, porque, em vez de somente olhar para dentro de você mesmo, você olha para imagens e sente emoções e forma institiva. Por exemplo, quando eu estava trabalhando na trilha sonora do filme Highlander, vi a sequência de quando o personagem é imortal e se casa com uma mulher. A esposa depois envelhece e morre nos braços dele, e ele não pode morrer. Imediatamente, ouvi uma música e a escrevi dentro do carro, quando ía para casa. Fiquei me perguntando como havia conseguido fazer a música tão rápido. Então, vi que a cena tirou coisas de dentro de mim. Naquela época, meu pai estava morrendo, meu casamento estava terminando, entre outras coisas. Algo externo pode extrair o que há de melhor em você. Pela primeira vez estou fazendo a trilha sonora inteira de uma obra para cinema. É um ótimo filme francês de arte, nada a ver com Hollywood. O CD deve sair em breve.

Repórter: Falando sobre filmes, você gravou com o Foo Fighters a música "Have a Cigar" do Pink Floyd para o filme Missão Impossível II. Como as guitarras foram elaboradas?

Brian May: Gosto muito do Foo Fighters. Poucas bandas possuem esta energia rock and roll. Pela adrenalina que rola, eles se importam com a música. Eles vieram para a Inglaterra e passaram um fim de semana na minha casa, onde tenho um estúdio. Nos divertimos bastante. O que está no disco é quase tudo ao vivo. Poucos "overdubs" foram feitos. Toco os solos junto com a banda. É a emoção do momento.

Repórter: Quando grava, você faz vários "overdubs" e constrói camadas de guitarra. Quando toca ao vivo, como torna seu som tão cheio?

Brian May: Em primeiro lugar, é preciso tocar com paixão. Além disso, há o recurso do "delay", que desenvolvi muitos anos atrás. Eu mesmo modifiquei um Echoplex para produzir longos "delays". A idéia era tocar uma nota e fazer com que ela voltasse para mim, de modo que eu pudesse fazer uma harmonia. Como eu tinha duas máquinas, podia fazer uma harmonização em três partes. Essa é a base de muitas coisas que parecem três guitarras, no Queen. Mais tarde, apareceu o "harmonizer". Em turnê recente, utilizei dois "harmonizers" e dois pedais, com os quais podia mudar os intervalos. O legal do "harmonizer" é que torna-se possível construir qualquer harmonia, mas há armadilhas: se você não variar os intervalos, o som fica horrível, com as guitarras soando em paralelo. Além disso, se você ficar o tempo todo olhando para os seus pés, mudando os intervalos, tem a tendência de perder o feeling e a espontaneidade. Então, na maior parte do tempo, deixo essas máquinas desligadas. A coisa mais importante em um show é tocar.

Repórter: Tendo sido um guitarrista de uma banda tão importante como o Queen, como você vê o atual cenário do rock?

Brian May: É difícil entender algumas músicas atuais, elas me fazem sentir que estou ficando velho. São repetitivas e mecânicas, não escuto paixão. De vez em quando, ouço algo de que gosto e que me faz perceber que a música é eterna. Por isso gostei do Foo Fighters, a paixão está presente, é rock and roll de verdade.

Repórter: O que você tem ouvido atualmente?

Brian May: Tenho escutado Mozart. Estou ampliando o meu conhecimento de como as coisas se encaixam. Quando estou no meu carro, escuto de tudo. Tenho ouvido Five, porque co-produzi o disco do grupo. Quando comecei a trabalhar diretamente com os garotos, vi que eles eram talentosos.

Repórter: Você estudou música quando era garoto?

Brian May: Estudei piano durante quatro anos, mas não gostava muito. Eu considerava um trabalho que tinha obrigação de fazer. Hoje, fico feliz por ter estudado. Durante essa época, eu tocava guitarra também, mas só de ouvido. Ficava escutando e copiando o som de discos, pensando como é que os guitarristas faziam aquelas coisas. Nunca tive aulas de guitarra. Meu pai tocava banjo ukulele e me ensinou alguns acordes.

Repórter: Costumava praticar muito?

Brian May: Eu praticava o tempo todo, sem considerar uma obrigação, como com o piano. Na guitarra, só queria fazer barulho e gostava dessa sensação. Muitos amigos meus tinham o mesmo interesse. Na hora do almoço, nós íamos tocar guitarra escondido, porque era proibido na escola. Tocar guitarra naquela época era considerado algo perigoso.

Repórter: E hoje, ainda estuda guitarra?

Brian May: Atualmente, tenho praticado todos os dias, porque vou fazer um show com o Five e quero estar preparado. Mas não costumo estudar muito. Meu estudo está na mente. Há sempre algo musical em minha cabeça.

Repórter: Como você imagina o som de guitarra no futuro?

Brian May: Acho que haverá uma grande onda de techno e realidade virtual, mas depois também terá uma reação contra isso. As pessoas perceberão que o humano é essencial. Tocar instrumentos de verdade voltará a ser importante.

Repórter: Quais são os seus planos para o futuro?

Brian May: Procuro encontrar equilíbrio em minha vida, para que tudo faça sentido. Sempre trabalhei muito, mas é necessário viver também. É preciso dar tempo à família e aos relacionamentos. Minha outra ambição é ver meus filhos felizes neste mundo.

Repórter: Você pretende tocar no Brasil?

Brian May: Estava conversando com meu empresário ontem à noite e pedi para ele descobrir se há alguma maneira de eu ir ao Brasil. Soube do projeto do Rock In Rio e gostaria de tocar lá. Sinto-me sempre próximo do Brasil. Uma química maravilhosa acontece quando tocamos aí.


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